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10 março 2006 

Portugal deverá falhar meta europeia de reciclagem de plásticos

Empresas dizem que o consumidor é que tem de separar mais, ambientalistas criticam falhas do Governo e dos sistemas de gestão de resíduos

Ricardo Garcia

Nunca se reciclou tanto lixo como agora em Portugal. Mas há uma ovelha negra: o país deverá falhar a meta de reciclagem de plásticos que tinha de cumprir até ao final de 2005, ao abrigo de uma directiva europeia que tinha concedido onze anos ao país para se preparar para isso.

Dados preliminares do Instituto de Resíduos indicam que, no ano passado, pouco mais de 11 por cento das embalagens de plástico deitadas para o lixo foram recuperadas e transformadas em plástico novo ou outros materiais. O mínimo, porém, deveria ser 15 por cento. Dos 15 Estados-membros mais antigos da União Europeia (UE), só a Grécia estará em situação pior.

Adoptada em 1994, a directiva europeia determinou que, até finais de 2001, pelo menos 25 por cento de todas as embalagens deitadas fora fossem recicladas. Para cada material em particular - vidro, papel, metais e plásticos - deveria haver um mínimo de 15 por cento de reciclagem.

Portugal, Irlanda e Grécia conseguiram uma derrogação da directiva até ao fim de 2005. Para o vidro, o papel e o metal, Portugal saiu-se bem, ultrapassando de longe os seus compromissos. Mas para os plásticos está aquém da meta e provavelmente não cumprirá a directiva.

"O plástico é sempre o mais problemático", afirma Luísa Pinheiro, directora do Departamento de Planeamento e Relações Internacionais do Instituto de Resíduos. "As outras fileiras têm uma tradição mais antiga de recolha selectiva", completa.

Problema é dos consumidores?
De acordo com os números provisórios do Instituto de Resíduos, em 2005 foram para o lixo cerca de 355 mil toneladas de plásticos, como garrafas de água, boiões de iogurte, sacos de supermercado ou embalagens industriais. Só cerca de 40 mil toneladas foram recicladas.

A Sociedade Ponto Verde - a empresa que gere a reciclagem das embalagens em nome da indústria - diz que o estrangulamento está do lado do consumidor, "que ou não deposita as embalagens usadas nos equipamentos de recolha selectiva apropriados ou utiliza algumas embalagens deste material para outros fins que não a reciclagem", segundo uma resposta escrita a perguntas do PÚBLICO.

Os plásticos que o cidadão coloca nos ecopontos contribuem com pouco mais de metade da quantidade reciclada, segundo dados da Sociedade Ponto Verde para o terceiro trimestre de 2005. O resto é retomado sobretudo no comércio e serviços.

A Plastval, entidade ligada à valorização dos plásticos criada pelas indústrias do sector, também entende que o problema está do lado do consumidor. "Há capacidade de reciclagem no país", diz Rui Toscano, dirigente da Plastval.

Falhas do sistema e do Governo?
O Instituto dos Resíduos tem também uma explicação adicional, a de que há tantos tipos diferentes de plásticos que é mais difícil separá-los. Mas Rui Toscano não crê que seja este o obstáculo: "Isto pode ser um falso problema. Cerca de 80 por cento das embalagens situam-se em dois tipos de plástico - polietileno e PET."

Toscano defende que, para estimular mais a reciclagem dos plásticos, a Sociedade Ponto Verde deve promover campanhas específicas junto do consumidor. "Tem que haver um esforço de comunicação maior para o plástico do que para os outros materiais", argumenta. Mas a Sociedade Ponto Verde, onde a própria Plastval está representada, entende que isto não se justifica. Segundo a empresa, 59 por cento dos portugueses não fazem qualquer tipo de separação do lixo em casa. A prioridade é convencer estas pessoas a separarem todos os materiais, e não apenas um só. "Não faz sentido considerar um material mais ou menos do que os outros", conclui a Sociedade Ponto Verde.

Para a associação ambientalista Quercus, estar a apontar o dedo só ao consumidor constitui um erro. "É uma péssima análise", afirma Rui Berckmeier, do Centro de Informação de Resíduos da Quercus. "É evidente que o consumidor tem de participar mais. Mas o Governo e os sistemas de gestão de resíduos deviam olhar primeiro para as suas próprias falhas."

Outros países com problemas
Berckmeier afirma que os ecopontos são ineficientes e que sistemas de recolha porta-a-porta poderiam aumentar duas a três vezes a retoma de plásticos. Além disso, devia-se apostar mais na recolha junto de grandes produtores - como os restaurantes. "A recolha selectiva tem de ser reequacionada", preconiza Berckmeier. Outras soluções passam pela recuperação e lavagem de plásticos que hoje vão para aterro e por formas de reciclagem de embalagens plásticas mistas.

Portugal não é o único país da Europa com dificuldades nos plásticos. Dinamarca e França também não conseguiram cumprir a meta dos 15 por cento no prazo previsto, que para estes países era 2001. Ambos chegaram ao final desse ano com 14 por cento, mas entretanto já ultrapassaram o valor mínimo. A Finlândia até 2003 estava em falta - com 14,3 por cento de reciclagem dos plásticos.

Portugal tem até Junho de 2007 para comunicar a Bruxelas os resultados finais da reciclagem em 2005. Até 2011, o país tem de cumprir novas metas de reciclagem, fixadas no ano passado pela União Europeia. Nos plásticos, o valor mínimo será de 22,5 por cento.

Lixos do país estão a ser reciclados na China
Uma parte relevante dos plásticos usados em Portugal estão a ser exportados para a China, onde são reciclados em condições que se desconhecem. A situação afecta algumas empresas nacionais de reciclagem, que já estão a sentir falta de matéria-prima.

A exportação abrange as embalagens de plástico recolhidas sobretudo nas indústrias, supermercados e centros comerciais, em circuitos paralelos aos dos sistemas de gestão de lixo e da Sociedade Ponto Verde. Em vez de serem encaminhados para os recicladores nacionais, são vendidos ao mercado asiático.

"Há determinados tipo de resíduos de embalagem que deixaram de aparecer", afirma Rui Toscano, da Plastval, a entidade que representa a fileira nacional de valorização dos plásticos. "No ano passado, estivemos dois dias parados sem matéria-prima", confirma Ricardo Pereira, da empresa Sirplaste, de Leiria, que transforma restos de plásticos em granulados reutilizáveis na mesma indústria.

O fenómeno não é recente, mas está a intensificar-se. Segundo Ricardo Pereira, desde há cerca de cinco anos que o mercado chinês está a absorver parte dos plásticos usados em Portugal - assim como em toda a Europa. A intervenção concentrava-se, porém, a determinados períodos do ano. Agora, é constante. "O peso da exportação vai ser maior em 2005", corrobora Luísa Pinheiro, do Instituto de Resíduos.

Um dos factores que está a contribuir para este movimento, além do acelerado crescimento económico da China, é a alta no preço do petróleo - a matéria-prima dos plásticos. Empresas chinesas estão a oferecer preços competitivos pelo plástico usado e são menos exigentes quanto à pureza dos lotes. "Estão a comprar tudo, do bom e do mau", diz Ricardo Pereira.

Pelo menos uma empresa chinesa de reciclagem de plástico já entrou com um pedido de acreditação junto da Plastval. Para o conseguir, terá de cumprir as mesmas especificações exigidas às empresas nacionais, inclusive em termos ambientais. Quase nada se sabe, porém, quanto à forma como operam as unidades de reciclagem na China para onde estão a ir, neste momento, os resíduos de plásticos de Portugal. "Nada impede que este material seja reciclado fora do país. Mas é preciso saber como é feito", afirma Pedro Carteiro, da associação Quercus.

http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2006&m=01&d=27&uid=&id=60528&sid=6693

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